Alterações no Crescimento e Desenvolvimento da Criança

Para poder Prevenir é importante estar Informado

Na grande maioria dos casos, um bebé nasce com todas as potencialidades para se tornar numa criança saudável. Durante o seu crescimento e desenvolvimento, vai adquirindo determinados hábitos de respiração, sucção, deglutição, mastigação, locomoção, entre outros. Contudo, estes podem ser assimilados pela criança de forma incorreta e, consequentemente, determinadas estruturas do seu organismo não serão solicitadas da maneira que deveriam ser, o que trará consequências durante o processo de crescimento e desenvolvimento da mesma.

Enquanto médica dentista com formação na área de ortopedia funcional dos maxilares, proponho uma leitura consciente deste artigo, no sentido de sensibilizar, principalmente mães e pais, para o facto de que as crianças necessitam de tempo para crescer e para se desenvolverem, e sobretudo para adquirir hábitos saudáveis, a assimilar em cada etapa do seu processo de desenvolvimento.

Comecemos por uma necessidade básica do organismo: a respiração. Logo desde o primeiro momento, a criança deverá aprender a respirar pelo nariz, abocanhando o peito da mãe, durante o período de amamentação, e desenvolvendo assim a respiração nasal. Neste aspeto, e para que a criança o consiga fazer, as vias aéreas devem estar limpas, sendo que esta higiene deve ser feita com regularidade. Durante a amamentação, a criança deve respirar naturalmente pelo nariz, sugando o leite materno, e realizando uma deglutição fisiológica, mediante e compressão da auréola mamária, e posteriormente do seu conteúdo, contra o palato. Deste modo, a língua começa a adquirir a sua posição correta na região superior da cavidade oral. Esta posição da língua terá uma grande influência positiva no crescimento do maxilar superior, e consequentemente no desenvolvimento das duas arcadas dentárias. Em situações que, por várias razões, não seja adquirido um padrão de deglutição normal, e se estabeleça adicionalmente um padrão respiratório sobretudo oral, o crescimento das estruturas poderá ser comprometido, o que muitas vezes se traduz no surgimento de mordida cruzada, falta de espaço nas arcadas, apinhamento dentário, discrepâncias no desenvolvimento entre os dois maxilares, etc.

Deste modo, há que ter em atenção vários aspetos. Olhar e analisar o crescimento e desenvolvimento das crianças, e duvidar. Porque é que estou com dificuldade em amamentar o meu filho? Porque é que ele não recebe bem o meu peito? Será suposto respirar pela boca durante o sono? Porque é que não consegue comer comida mais dura e consistente? É impressão minha, ou o nosso filho só mastiga para um lado? Já reparaste que ele tem um ombro mais alto que o outro?

Ninguém nasce perfeito. Todos temos as nossas assimetrias naturais e tendências de crescimento geneticamente herdadas, as quais acabam, mais cedo ou mais tarde, por se refletir no desenvolvimento das crianças. Mas, pelo menos, poderemos evitar alguns problemas, ou o seu agravamento, se estivermos mais atentos. Há que questionar porque é que o recém-nascido não se consegue alimentar do peito da mãe. Poderá, por exemplo, estar relacionado com uma anquiloglossia severa (freio lingual curto) não diagnosticada? Devemos estar atentos, observar processos tão simples quanto a respiração de uma criança. Esta deve respirar bem pelo nariz, sem esforço, o que poderá em alguns casos ser difícil, mas há que perceber qual é o problema. Manter o nariz limpo é essencial, e essa higiene deve ser feita regularmente, estabelecendo essa rotina, tal como se implementa a escovagem dos dentes. É também importante tentar perceber se será algo mais interno. Verificar se não estarão as amígdalas hipertrofiadas, a obstruir totalmente a via aérea da criança, e procurar ajuda, através do pediatra, do otorrinolaringologista, ou mesmo do médico dentista, que poderão ajudar a diagnosticar uma situação dessas, a qual deverá ser encaminhada e acompanhada da melhor maneira em cada caso particular. Praticar atividades ao ar livre, evitar ter as divisões da casa muito aquecidas e, consequentemente, não submeter as crianças a grandes diferenças de temperatura, tudo poderá ajudar a respirar melhor.

No que respeita à alimentação, devemos introduzir alimentos consistentes desde cedo. Fazer os músculos trabalhar. Desenvolver exige exercício. Os maxilares só poderão crescer corretamente se os músculos que neles se inserem forem corretamente solicitados, e com frequência. Devemos chamar a atenção da criança para mastigar para os dois lados, alternadamente, logo desde pequenina. A repetição de um comportamento, torna-se um hábito, portanto há que criar bons hábitos de mastigação. Muitas crianças desenvolvem assimetrias oclusais no encaixe entre os dois maxilares, advenientes da aquisição de uma mastigação unilateral viciosa, e em situações em que esta assimetria já está bem estabelecida, a criança já não vai conseguir sozinha adquirir o hábito de mastigar para os dois lados. Neste sentido, estejamos também atentos à saúde oral dos nossos filhos, pensar que se mastigam sempre para o mesmo lado, poderá ser pela presença de lesões de cárie, ou de algo que provoque dor quando mastigam para o lado contrário. Fazer esse despiste com o médico dentista é também muito importante.

Pelas razões apresentadas acima, quanto mais cedo se detetarem estas pequenas alterações de comportamento, mais fácil será evitar determinadas consequências no crescimento das estruturas. Na maior parte dos casos, não vale a pena esperar para ver. Alterações no crescimento devem ser identificadas e avaliadas, não só pelos pais, mas principalmente por profissionais de saúde. É importante procurar a opinião de profissionais em várias áreas, nas várias fases de desenvolvimento da criança. A opinião do pediatra é importante, assim como a opinião do otorrinolaringologista, do ortopedista, do médico dentista, do terapeuta da fala, do fisioterapeuta, do nutricionista, etc. Devemos procurar a opinião de profissionais de saúde a partir do momento que nos apercebemos que parece existir algo no crescimento/ desenvolvimento dos nossos filhos que não parece tão normal quanto seria de esperar.

Muitas vezes, as pequenas alterações passam despercebidas, e quando começam a existir sinais mais percetíveis, já é numa fase em que é necessário tratar, em que já não basta intervir preventivamente. Na minha prática clínica, tenho verificado que a maior parte das crianças apresentam alterações no crescimento dos maxilares, mesmo antes da erupção dos dentes definitivos. E nesta fase mais precoce, é essencial intervir, quer seja prevenindo ou tratando, de modo a não agravar uma situação que se tende a estabelecer de forma incorreta, e que irá ter influência no desenvolvimento de todas as estruturas do corpo.

Prevenir é a palavra-chave para o crescimento e desenvolvimento saudável de uma criança.

Artigo redigido por Ana Cepêda

(Médica Dentista com prática clínica em Ortopedia Funcional dos Maxilares)